domingo, 21 de junho de 2015

Resposta a perguntas de leitor sobre causalidade e a eternidade do mundo

Chegaram-me de um amável leitor algumas questões sobre filosofia, que respeitam particularmente aos temas da subordinação de causas eficientes e à eternidade do mundo e à doutrina de Tomás de Aquino sobre estes pontos. Dividi as questões em três perguntas.

Primeira: em que sentido é que São Tomás afirma que uma série de causas subordinadas, ou seja, em que cada uma das causas da série é causada pela anterior, não pode ser infinita?

Segunda: será compatível a afirmação de que uma série de causas causadas não pode ser infinita com a afirmação de Tomás de que é possível que o mundo exista há um tempo infinito?

Terceira: pode uma série de causas causadas circular ser infinita?

Seguirei a ordem das perguntas na resposta.

1. Em que sentido é que uma série de causas causadas não pode ser infinita?


São Tomás afirma que é impossível existir uma série infinita de causas subordinadas. No entanto, São Tomás distingue entre dois tipos de séries de causas subordinadas:

a) Causas acidentalmente subordinadas;

b) Causas essencialmente subordinadas.

A série de causas acidentalmente subordinadas é aquela em que o efeito não depende actualmente da causa para continuar a existir e a agir. Um exemplo desta série de causas subordinadas é a série das gerações humanas. O filho não depende actualmente dos pais para existir ou agir depois do nascimento.

A série de causas essencialmente subordinadas é aquela em que o efeito depende actualmente da causa para continuar a existir e a agir. Um exemplo, quanto à existência, é o dos animais, que dependem a cada momento do influxo de múltiplas causas para existir, como, por exemplo, da actividade das suas células, que, por sua vez, depende de outras causas. Um exemplo, quanto à acção, é o da serra que apenas se move pela mão do marceneiro, e que, quando cessa o movimento da mão, cessa também de serrar.

O que Tomás de Aquino afirma em vários lugares é que é impossível existir uma série infinita de causas essencialmente subordinadas, porque se cada uma das causas apenas existe e age por influxo de todas as causas anteriores, mas nenhuma houvesse que tivesse por si a existência ou o poder de causar, nada existiria e nada seria causado.

Diferentemente, Tomás de Aquino não nega a possibilidade de existir uma série infinita de causas acidentalmente subordinadas. Nos lugares em que examina a questão da eternidade do mundo, como, por exemplo, no breve opúsculo Da eternidade do mundo contra os murmurantes, ou na Suma Contra o Gentios (Livro II, capítulos 31 a 38), Aquino debate-se com o argumento da impossibilidade de uma série de causas acidentalmente subordinadas aduzido para provar a impossibilidade da eternidade do mundo, e rejeita-o como falacioso. Assim, não encontra nenhuma contradição na existência uma série infinita de gerações humanas, nem pensa que se possa resolver definitivamente a questão de saber se nasceu primeiro a galinha ou o ovo, porque esta série galinácea, como toda a série de causas acidentalmente subordinadas, poderia ser infinita.


2. Será compatível a afirmação de que uma série de causas causadas não pode ser infinita com a afirmação de Tomás de que é possível que o mundo exista há um tempo infinito?


A série de causas essencialmente subordinadas implica a simultaneidade do exercício da causalidade por cada uma delas. A consideração do tempo é irrelevante para este caso, e, por isso, a possibilidade de um mundo eterno em nada contradiz a existência de uma série deste tipo. 

No entanto, foram muitos os que tentaram provar que o mundo não é eterno afirmando a impossibilidade de uma série de causas acidentalmente subordinadas. Um mundo que sempre tenha existido parece implicar necessariamente uma série infinita de causas essencialmente subordinadas. Tomás de Aquino propõe alguns exemplos de séries deste tipo que existiriam num mundo eterno, como seria o número infinito de dias passados ou de rotações do sol. Se alguma destas séries fosse infinita, não se poderia transcorrer e nunca chegaríamos a um último termo, como a este dia na série dos dias ou à actual rotação do sol na série de rotações do sol.

Aquino recusou validade a esse argumento, observando muito justamente que a infinitude da série não se realiza simultaneamente, mas sucessivamente. Pode ser que o mundo não tenha tido um primeiro dia, que o número de dias passados seja infinito, mas isso dá-se por partes finitas, e, assim, o infinito pode ser percorrido. A imaginação intromete-se nos caminhos do pensamento e inclina-nos a assimilar o tempo ao espaço, imaginando-o como uma linha contínua. Mas, na verdade, as partes do tempo não nos são todas dadas em simultâneo, como no espaço, mas em sucessão.

A razão mais profunda pela qual não é possível provar de maneira necessária alguma proposição sobre o começo ou a eternidade de qualquer ente é que a consideração da essência de uma coisa prescinde da temporalidade. A essência de um ente, exprimida pela definição, pode ser tomada como princípio de prova em um silogismo para concluir necessariamente uma proposição sobre a coisa. Porém, a essência de uma coisa, enquanto tal, é imutável e exprime sempre uma possibilidade de existir, não implicando considerações temporais.

3. Pode uma série de causas causadas circular ser infinita?


Tendemos a imaginar a série de causas subordinadas como uma sucessão de objectos em linha recta. Mas tentemos imaginá-la como um círculo, em que A é a causa de B e B é causa de A.

É possível existir deste modo uma série infinita de causas essencialmente subordinadas?

A esta hipótese responde-se que o círculo de causas envolve uma contradição, porque se uma coisa é produzida por outra que foi feita por ela, produz-se a si mesma; portanto teria que existir antes de existir, porque só opera aquilo que existe. 

Por conseguinte, qualquer série circular de causas nunca pode encerrar a origem da causalidade, mas apenas pode ser uma cadeia de transmissão da causalidade; pelo que estará dependente de uma causa fora da série.

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