quarta-feira, 6 de maio de 2015

O homem e a circunstância


«Ser violada por um padrasto já é muito mau. Só faltava ter um filho da relação. Seria quase como o filme do Polanski, A Semente do Diabo. Era só o que faltava. Não vejo outra opção a não ser terminar a gravidez. E falo não apenas como psiquiatra, mas como cidadão. Ter este filho fere de tal maneira os nossos valores simbólicos que não poderíamos viver enquanto sociedade com essa decisão. Seria pactuar com um crime. Ter este filho do diabo seria a continuação de um traumatismo. Mesmo que ela tenha a fantasia, muito comum em pré-adolescentes e adolescentes, de querer ser mãe, o melhor é tirá-la da cabeça. [Essa fantasia] tem que ser vista como uma prova de imaturidade, de não ter capacidade para perceber o que lhe está a acontecer.»

Existe um perigo sempre presente nas nossas relações com o outro – e, porque, inevitavelmente, somos para alguém um outro, é um perigo que ameaça cada um. É o perigo de ligar alguém a uma particularidade como se a pessoa não fosse senão aquilo que essa particularidade é ou representa. Como regra geral, fazemo-lo em relação a alguma circunstância com importância para nós. Por exemplo, o João, que me roubou as bolachas, nunca será o João; é o larápio que me roubou as bolachas. O Álvaro, que é meu adversário político, não é o Álvaro, é o instrumento de uma ideologia nefasta. O Guilherme, meu concorrente, deixou de ser o Guilherme para se tornar num obstáculo. Também funciona ao contrário, como quando valorizamos alguém por um aspecto particular e desconsideramos tudo o mais, como se apreciássemos a nossa mãe apenas por ser boa cozinheira ou se procurássemos a companhia de um amigo só porque ele é rico.

Esta é uma certa maneira subtil de nos colocarmos no centro do universo. As pessoas que vivem em nosso redor são definidas pela maneira boa ou má como nos afectam. Tudo o mais fica obscurecido. É uma atitude semelhante à do homem que abre a janela e pretende ver a partir dela tudo o que existe – tudo o que imerge no horizonte não existe para ele só porque não lhe entra pelos olhos dentro. Só que todas as janelas são estreitas e apenas podem mostrar a menor parte do mundo – incluindo aquelas janelas pelas quais vemos os outros.

Ser reduzido a pouco mais do que uma circunstância e ao seu significado é um risco que todos corremos, e logo desde o nascimento. Não é necessário um grande esforço de memória para lembrar que ainda ontem os filhos nascidos fora do casamento viviam toda a vida sob o signo da bastardia. Seria interessante perguntar a um dos homens ou mulheres nascidos nestas circunstâncias se pensam que a palavra que melhor os define é “bastardo”. Certamente que não; porque um homem ou uma mulher são mais do que a circunstância infeliz ou feliz em que aparecem na vida de alguém. O mito de que as circunstâncias de nascimento definem o homem é, verdadeiramente, uma superstição vetusta, que ciclicamente se renova.

Ora, quando, no trecho acima transcrito, Carlos Amaral Dias chama à criança em causa “filho do diabo” e afirma que deixar despontar este fruto maligno é pactuar com o crime do pai, não consigo livrar-me da sensação de que oiço os ecos da superstição antiga e do mito obscurantista que nos dizia que a circunstância em que um homem ou uma mulher nascem os abarca e os define.

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