sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Afinal, qual é a cor do vestido?


Tenho lido variados comentários, muitos deles jocosos, à notícia de um vestido que exposto a certa luz parece a uns preto e azul e a outros branco e dourado. A audiência comum da notícia viu no facto uma curiosidade; uma minoria mais crítica, uma futilidade; uma minoria mais reduzida, porém, entra em comunhão com o vulgo em encarar o fenómeno como uma curiosidade, mas como uma curiosidade ainda maior e, dir-se-ia até, científica.

O sucedido é, na verdade, uma mais entre recorrentes manifestações do modo como conhecemos sensivelmente o mundo. Os filósofos do medievo sintetizavam o problema num brocardo latínico: de gustibus et coloribus non est disputandum - não se discute o paladar e a cor. É que se torna evidente por experiência externa e por introspecção que o conhecimento sensitivo é eminentemente subjectivo, isto é, cada sujeito sensaciona a seu modo.

Aquilo que imediatamente percebemos nos órgãos sensitivos não é um objecto externo ao órgão, mas uma modificação intra-orgânica. Quando eu olho este papel branco em que escrevo, é a este que percepciono imediatamente? Não; percebo, sim, a alteração que a luz produz na minha retina. E se ponho sobre a língua um torrão de açúcar, consigo perceber uma propriedade intrínseca do açúcar, a doçura? Novamente, não: percepciono a perturbação química que se origina nas minhas papilas. E não seria ridículo, quando estirado no divã do dentista, julgar que a dor provocada pela lâmina que perfura a gengiva é uma qualidade do bisturi? Concluiremos, então: a sensação, porque é a modificação orgânica de um sujeito, manifesta-se segundo as condições próprias do sujeito.

Que descobriríamos se estudássemos o aparato sensitivo dos grupos zoológicos distintos do homem? Animais há que vêem e ouvem movimentos na natureza que não cruzam os umbrais da percepção humana.

Os nossos sentidos não conhecem as coisas tais como são, isto é, como são independentemente da nossa sensação delas. Quando sentimos, pomos na sensação do objecto algo que é nosso, porque recebemos uma impressão no nosso modo próprio. Negá-lo seria negar a distinção entre sensíveis em potência e sensíveis em acto, ou seja, entre a coisa enquanto não é objecto de sensação, embora possa vir a sê-lo, e a coisa enquanto é objecto de sensação. E isto conduziria a uma de duas afirmações, ambas absurdas, ambas insustentáveis: ou a de que todas as coisas que são susceptíveis de ser sensacionadas nunca o deixam de ser – ou a de que as coisas deixam de existir quando cessa a nossa percepção delas.

Mas não se pense que confundo no meu discurso aquilo a que os escolásticos chamavam, para distinguir, sensatio e sensatum, referindo-se, respectivamente, à modificação orgânica que é a sensação e ao objecto extra-orgânico que a causa. Não podem os idealistas reconfortar-se nas minhas palavras.

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