quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Falsificação e Universalidade



O critério de testabilidade das proposições das ciências experimentais foi buscá-lo Popper à falsicabilidade das mesmas. Uma proposição é falsicável, segundo as suas palavras, «se e  só se existir, pelo menos, um falsificador potencial – pelo menos um enunciado básico possível que esteja logicamente em conflito com ela[1]». Este ponto de vista é exacto, desde que se façam necessárias distinções. A ciência é composta principalmente de proposições universais do tipo «todo o x é um y». As proposições singulares do tipo «este x é um y», bem como nas proposições particulares do tipo «algum x é um y», que, aliás, se podem derivar de uma proposição singular, não põem dúvidas quanto à sua verificabilidade , isto é, que podemos estar certos da sua verdade se observarmos um qualquer caso em que x seja y. No que respeita às proposições universais, porém, da observação de casos singulares, que é o princípio do método das ciências experimentais, não pode jamais resultar a sua verificação. A razão é que não se consegue fazer a observação de todos os casos actuais nem de todos os casos possíveis – não havendo, pois, lugar a indução completa.

Se a verificação singular da conexão entre o sujeito e o predicado, ainda que repetidamente realizada, não pode verificar a proposição universal, já a falsificação singular da mesma conexão é suficiente para falsificar a proposição universal. É evidente que é assim, já que a proposição singular ou particular negativas são contraditórias da universal afirmativa (e a singular ou particular afirmativas da universal negativa), o que implica que aquelas não podem ser verdadeiras se a outra for verdadeira, ou falsas se a outra for falsa, e vice-versa.

Por estas razões, as proposições das ciências experimentais não podem nunca aspirar a uma verdadeira universalidade. A universalidade que contêm é puramente funcional. O cientificismo, que tende a reduzir todo o saber ao saber experimental, conduz a admitir que todo o conhecimento é incerto ou que não existe conhecimento de todo, uma vez que a indução não consegue facultar os critérios universalmente válidos pelos quais ajuízamos do seu próprio fundamento e alcance.


[1] POPPER, Karl, O Realismo e o Objectivo da Ciência – Pós-Escrito à Lógica da Descoberta Científica, vol. I, pág. 20, Publicações Dom Quixote, 1992

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