sábado, 22 de novembro de 2014

A união da razão e da fé


Depois de ter facultado uma definição geral de , proponho-me fazer ver que a fé é essencialmente racional.

Em sentido contrário, há quem defenda que a fé é essencialmente um sentimento, alheia, portanto, à actividade do intelecto. Contudo, a fé, divina ou humana que seja, envolve principalmente o intelecto – isso a que, falando geralmente, se chama razão. Assim, mostrarei que:

- a razão precede a fé;

- a razão sustenta a fé;

- a fé prolonga a razão e a razão a fé.

A razão precede a fé. Vimos que a fé é uma crença fundada na evidência extrínseca da verdade de um certo juízo. Há certas proposições que, por sua natureza, não podem facultar uma evidência intrínseca ao intelecto. É este o caso, por exemplo, do conhecimento histórico. Há também proposições que são apenas evidentes para alguns intelectos, como é o caso daquelas proposições das ciências que são evidentes apenas para os especialistas nas matérias em causa, mas não para os outros[1]. Uma vez que o intelecto não é movido pela evidência intrínseca do objecto, é necessário que a vontade o mova a prestar assentimento a essas proposições. Este acto da vontade é legítimo se o intelecto vê a veracidade intrínseca do testemunho ou reconhece a autoridade pessoal daquele que o comunica. No que concerne aos enunciados históricos, por exemplo, a convergência de relatos e as múltiplas circunstâncias que os corroboram facultam ao intelecto os motivos de credibilidade do testemunho – a evidência extrínseca – e a vontade impera o assentimento intelectual àquilo que é atestado[2]. No que respeita às declarações dos especialistas em certa matéria, o intelecto reconhece a autoridade pessoal habitual daquele que fala, imperando a vontado o assentimento intelectual àquilo que é declarado[3]. É, pois, deste modo, que a razão precede a fé.

A razão sustenta a fé. A fé não é um movimento cego da sensibilidade, mas é um juízo do intelecto que atribui um predicado a um sujeito. A fé é o assentimento a uma verdade que é adquirida pelo modo humano de conhecer, isto é, formando enunciados que identificam um sujeito e um predicado[4]. No interior do próprio acto de fé, portanto, actua a razão.

A fé prolonga a razão e a razão a fé. A fé complementa o intelecto com o conhecimento de objectos que não possuem uma evidência intrínseca. Se o intelecto aderisse somente àquilo que pode ver por si mesmo, a razão humana ficaria terrivelmente limitada, porque teria que abdicar da maior parte do seu conhecimento histórico e científico. A vida social, fundamentada no crédito atribuído àquilo que nos é comunicado pelo outro, tornar-se-ia impossível. Por outro lado, a razão prolonga a fé, porque torna o conhecido por fé como premissas dos seus raciocínios e retira como consequências novos conhecimentos. É assim que a fé e a razão se complementam mutuamente.

É necessário dizer que a evidência extrínseca é mais imperfeita do que a evidência intrínseca. A evidência extrínseca é sempre dependente da evidência intrínseca que o objecto apresenta a algum intelecto, como a ciência inferior depende da superior para a defesa dos seus princípios[5].

É também necessário insistir no valor social da fé. A fé, por definição, não pode ser vivida isoladamente: é um acto em que estão implicados aquele que assente e aquele que testemunha. Se a fé oferece uma evidência muito mais imperfeita do que o conhecimento do objecto em si mesmo, a verdade é que é muito mais importante socialmente. A tributação de credibilidade às palavras do outro traduz-se em uma livre homenagem à sua pessoa e esta confiança é o cimento da vida social. Sem esse assentimento e essa confiança, o desenvolvimento das faculdades do homem não seria possível.



[1] AQUINO, S. Th. 1 q.2 a.1, resp.
[2] O assentimento dado às asserções da História parece ficar a dever-se a uma espécie de raciocínio por redução ao absurdo em que se conclui que os relatos concordantes sobre dado facto e as circunstâncias que os corroboram não poderiam ser explicados por outra hipótese que não seja a verdade daquilo que é atestado.
[3] Se bem que o argumento de autoridade humana é muito frágil, podendo apenas fornecer, dadas certas condições, maior ou menor credibilidade àquilo que é afirmado: Locus a auctoritate, quae fundatur super ratione humana, est infirmissimus (Cf. AQUINO, S. Th. 1 q.1 a.8 ad.2).
[4] AQUINO, S. Th. 2-2 q.1 a.4.
[5] AQUINO, S. Th. 1 q.1 a.2.

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