quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A caminhada pela vida


No próximo dia 4 de Outubro, hei-de caminhar, e outros comigo, do Largo Camões até à Assembleia da República, em defesa da vida humana. Não aprecio manifestações, não gosto de gritar palavras de ordem, nem de tomar o rumo das passeatas. Mas faço excepcões quando à consciência pesa a importância do assunto. 

A vida humana é ameaçada de todos os lados. Quando caminhar, porém, no Sábado, terei no pensamento a ameaça particular à vida que é o aborto. A vida humana é também ameaçada pela pobreza, pela guerra, pela desagregação da família e pela ideologia. Viver é a coisa mais perigosa que existe. Mas a ameaça do aborto impressiona por ser tão radical - por nem sequer permitir à vítima correr o enorme e misterioso risco que é viver neste mundo.

Sempre me acompanha a sensação, quando penso no assunto, que a questão do aborto é uma questão de democracia. A democracia consiste essencialmente em que os governados tenham uma palavra a dizer sobre a forma como são governados. A voz de cada um defende melhor os próprios interesses. Há uma espécie de egoísmo comum a todos os homens que resulta em que se façam boas leis gerais. Um homem poderia, por exemplo, querer apoderar-se dos bens do vizinho, reclamando liberdade de furtar os vizinhos mais ricos, o que conseguiria justificar com provável sucesso com uma série de razões, inclusivamente humanitárias. No entanto, ele percebe que se subscrevesse com a sua assinatura uma lei do género, poderia estar a consentir na privação dos seus próprios bens. Então, proíbe-se o roubo. Um homem pode achar que o mundo seria um lugar mais limpo se se pudesse eliminar da face da terra dois ou três cidadãos que a corrompem. Mas, quando consentisse nessa liberdade, poderia estar a colocar o próprio pescoço na guilhotina. Então, proíbe-se, em definitivo, o homicídio. 

Com o aborto passa-se algo de totalmente diferente. Há algo que nos impede de reclamar a liberdade do furto, que é o temor de nos vermos espoliados. Há algo que nos impede de aprovar a prática profiláctica do homicídio, que é o perigo de virmos a ser nós a reclinar o pescoço na guilhotina. Não há um temor semelhante que impeça quem quer que seja de aprovar a liberdade de abortar. Não será nunca o legislador a sofrer as consequências de um acto dessa natureza. Uma lei que permita o aborto é profundamente anti-democrática, porque quem a legisla não põe o pescoço na guilhotina. É o triunfo da vontade egoísta, nada mais. Entregar a quem quer que seja o poder para carimbar uma lei de efeitos tão graves sobre a vida daqueles que não podem em circunstância alguma fazer-se representar, consiste em não mais do que em estabelecer a opressão da classe dos já nascidos sobre a classe dos que ainda não nasceram.

É sempre mais fácil sentenciar uma condenação que não nos condena e mais difícil é a jornada daqueles que militam por quem não pode militar por si próprio. Há algo de idílico nessa jornada ou até mesmo de heróico. Mas são essas as caminhadas que valem a pena. Estou certo de que o dia 4 de Outubro não será um dia de uma marcha de ódio. Será uma manifestação de alegria, paz, esperança, porque são essas as coisas que fazem da vida um dom espantoso, uma surpresa eterna.

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